Dvorák

Quarteto de cordas no. 12, “Americano”

por Adriano Brandão

Antonín Dvorák sempre viveu modestamente na sua Boêmia natal. Na verdade, demorou para se livrar de preocupações materiais mais imediatas. Em 1874, quando tinha uns 33 anos, ganhou um prêmio do governo austríaco e chamou a atenção de Brahms, mas permaneceu relativamente obscuro. Em 1877 ganhou o prêmio novamente e aí sim veio o sucesso – Simrock, o mesmo editor de Brahms, acabou por lhe encomendar as “Danças eslavas” e uma carreira internacional começou.

O ápice desse reconhecimento veio em 1892, quando foi convidado para chefiar o Conservatório de Nova York. A oferta foi irrecusável! Os Estados Unidos eram uma jovem nação em busca de respeitabilidade, e importar grandes nomes da Europa era uma das estratégias – Tchaikovsky regeu o concerto inaugural do Carnegie Hall um ano antes, Mahler repetiria a jornada dvorakiana quinze anos depois.

Feliz da vida, Dvorák rumou à América. O começo foi incrível – compôs e estreou sua Nona Sinfonia no que provavelmente foi o maior triunfo de sua carreira -, mas logo teve seu salário diminuído e as pressões, ampliadas. Um de seus refúgios americanos era uma pequena comunidade rural tcheca no estado de Iowa, meio-oeste dos EUA, na qual passava os verões. Nela, matava um pouquinho da saudade de casa e, ao mesmo tempo, travava contato com a música local.

E voltou a compor! A primeira obra de Spillville foi este Quarteto de cordas no. 12, que muito cedo recebeu o apelido de “Americano”. Faz jus ao epíteto. Ele é repleto de melodias pentatônicas, que lembram imediatamente tanto a música folclórica branca americana quanto o spirituals negro. Dvorák inventa aqui uma fórmula que se provou eficaz: o perfume modal combinado com certa ênfase em ritmos sincopados são a base de muito do que imaginamos “Velho Oeste” em música.

(Sim! Essa linguagem “americana” não existia até aparecer Dvorák, um tcheco, para criá-la! Só depois é que foi usada à exaustão por compositores nativos como Chadwick e Parker. Parker, aliás, foi professor de Charles Ives. Ouça lá sua Sinfonia no. 1 e me diga se é ou não puro Dvorák!)

O Quarteto no. 12 é delicioso e permanece como um dos mais famosos do repertório. O segundo movimento tem um sabor nostálgico aparentado ao spirituals e é maravilhoso do início ao fim. E o terceiro, um scherzo, tem um convidado especial, um passarinho chamado sanhaçu-escarlate, cujo canto insistente atormentava Dvorák. Acabou inserido no quarteto – preste atenção numas figuras repetidas do violino :)

Dvorák voltou a Europa dois anos depois. Mas da estada americana ficaram várias obras-primas: a Nona Sinfonia, este Quarteto “Americano”, um quinteto de cordas, uma sonatina para violino, o supremo Concerto para violoncelo… e principalmente um estilo novo, que deixou de presente para os anfitriões. Esse cara era demais!

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Post escrito por Adriano Brandão em 20/02/2014. Link permanente.