Mahler

Sinfonia no. 5

por Adriano Brandão

Nossa série “V” adentra ao século 20! Começamos pela Quinta de Beethoven e passamos pela Quinta de Bruckner. Hoje chegamos à ultrafamosa Sinfonia no. 5 de Gustav Mahler, a Quinta mais conhecida desde Beethoven, provavelmente uma das obras mais populares do compositor austríaco.

Mahler dedicou sua carreira à criação de sinfonias, compondo canções lá e cá para dar uma variada. São nove sinfonias (uma Décima, inacabada, resta em esboços bastante avançados). Começou com uma Primeira nos quatro movimentos tradicionais, mas com referências extramusicais e um certo gosto pelo bizarro que lhe dão tempero especial. Nas três sinfonias seguintes, fugiu completamente à convenção: a Segunda tem um final coral absolutamente colossal, e a Terceira é um mamute de seis movimentos, com parte para contralto, coro infantil e o diabo-a-quatro. A Quarta, com sua carinha mozartiana, já indica um certo retorno à forma tradicional de sinfonia, mas o finale que é uma canção d”A trompa mágica do jovem” subverte tudo.

É na Sinfonia no. 5, composta em 1902, que Mahler segura um pouco a onda. (Ele só voltaria a pirar com coro e solistas na Oitava, de 1910.) A Quinta é quase uma sinfonia convencional, só para orquestra, com… hmmm… cinco movimentos. Vejamos :)

A Quinta começa como a Segunda, com uma marcha fúnebre. O início é marcante: uma fanfarra para trompete solo que desencadeia em uma grande explosão orquestral. BIG WOW!

O segundo movimento, que continua o clima tenso e sombrio do primeiro, tem algumas dissonâncias “gritadas” deliciosas e é um mistério de se classificar. Não é scherzo, não é nada. Parece mais um (  ) segundo primeiro movimento, ou (  ) uma continuação do primeiro movimento, ou ( X ) o real primeiro movimento. Gosto da última opção: a marcha fúnebre é uma introdução à parte da sinfonia, que começa de fato no segundo andamento. Intrigante.

No final desse segundo-primeiro movimento, o clima se transforma. Chega-se a um clímax engraçadamente wagneriano. Guarde ele na memória. Parece que Mahler aqui enfim se livra de sua proverbial morbidez – a partir desse evento o tom da sinfonia vai mudar. Após uma grande pausa, começa o scherzo em si, que é quase uma canção d”A trompa mágica” em seu clima meio pastoral meio fantástico, totalmente irônico com seus ritmos de valsa.

Mais uma grande pausa, e começa o trecho mais famoso da sinfonia e de toda a produção mahleriana: o quarto movimento, o celebérrimo Adagietto, somente para cordas e harpa. A razão da fama, além da beleza quase imaterial da música, é sua utilização no filme “Morte em Veneza”, do cineasta italiano Luchino Visconti (sobre romance homônimo de Thomas Mann). O filme é de 1971 e começa e termina com música de Mahler. (Vale dizer que Mahler havia recentemente voltado à moda, curiosamente associado com a contracultura que emergia na época.)

Após essa música celestial, com suas modulações incríveis estrategicamente realçadas por portamentos (cada uma delas, um pequeno ataque cardíaco!), um tema bobocamente feliz começa o finale, quase sem interrupção. Segue-se uma cadeia de ultrajes: 1. esse teminha tolo é base de não uma, mas várias fugas caricatas; 2. que encaminham para a volta do clímax em estilo wagneriano (sim, aquele do segundo movimento); 3. que leva ao retumbante e circense final.

Ó o Mahler tirando com a cara da plateia! O que ele quis com esse finale tão propositadamente quadradinho e exterior, que tem a maior cara de espertão da história da música? Mistério! Dois fatos: o happy ending dessa sinfonia que começou tão sombria é até legal, se assumirmos esse seu lado galhofa; e Mahler faria a mesma coisa novamente, na Sétima. Por outro lado, a Sexta, que um dia hei de comentar, termina maaaaaaaaaal…

Mahler é fascinante: dá pra debater infinitamente. E você, o que acha? Ouça a sinfonia… e diga suas impressões abaixo!

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Post escrito por Adriano Brandão em 11/03/2013. Link permanente.