Stravinsky

“Petrushka”

por Adriano Brandão

É uma verdade universalmente conhecida que cultura é uma teia de referências. Quando hoje acordei de sonhos intran­quilos, fiquei pensando em como isso se materializa em termos de citações. Se querem mesmo ouvir o que penso, a primeira coisa que vão querer saber é que criar e procurar referências é MUITO legal. É tipo a luz da nossa vida, a labareda na nossa carne… não, mas quase :)

Todas as famílias felizes se parecem mas o uso de citações em música varia bastante. Na verdade, o recurso de se apropriar de um tema e fazer uma referência explícita para o ouvinte, é muito antigo. No início do Renascimento, por exemplo, compositores inventaram a chamada “missa paródia”, que se trata de uma missa construída a partir de um tema já existente. Um ficou clássico: a canção “O homem armado”, usado à exaustão em missas de dezenas de compositores, inclusive Josquin e Palestrina.

Mas foi no século 20 que o uso citação evoluiu. Compositores começaram a explorá-lo sistematicamente como meio de se construir um universo referencial próprio. O exemplo mais relevante é Mahler: suas sinfonias citam o tempo inteiro, desde temas populares (“Frère Jacques” na “Titã”), obras anteriores (canções da “A trompa mágica do jovem” nas sinfonias 2 a 5) e mesmo pequenos fragmentos recorrentes do compositor (a abertura da Quinta no meio da Quarta)… Mahler assim criou um mundo mahleriano coerente para suas obras habitarem, mais ou menos do mesmo jeito como Tolkien inventou a Terra Média.

Existe um extremo da citação. que é a colagem. E daí é impossível não pensar na grande colagem quintessencial: o maravilhoso balé “Petrushka”, de Stravinsky, de 1911. O plot conta a historinha de um marionete controlado por um mágico charlatão em uma agitadíssima feira popular de Terça-feira Gorda.

Para recriar o ambiente de feira, Stravinsky lança mão do recurso de justapor ritmos, melodias e até tons diferentes. O resultado é incrível. A atmosfera maluca, caótica, é quase palpável. Há momentos em que ficamos perdidos nessa multidão – já não sabemos o que devemos seguir. É estupefaciente :)

Vamos à caça das referências? Algumas: a canção francesa “Ela tinha uma perna de pau” na cena das dançarinas e o realejo; a melodia russa “Descendo a Peterskaia” na dança na feira no quarto ato; e, quando a Bailiarina se exibe para o Mouro, as citações das valsas do precursor da família Strauss, Joseph Lanner: “Die Schönbrunner” e as “Danças da Estíria”.

Com essa mistura toda de harmonia bitonal, ritmos complexos, música de circo, valsa vienense e todo tipo de tranqueira kitsch, Stravinsky mostra que do mais banal pode surgir o mais sublime. “Petrushka” praticamente inaugurou a era do corte rápido e da edição frenética – pilares de muitas das manifestações artísticas atuais, da música ao cinema ao comercial de TV.

Por tudo isso e por essa modernidade eternamente desconcertante, “Petrushka” recebe o SELO DE EXCELÊNCIA DO GRANDE CARVALHO. É demais mesmo! E olha só quanto vídeo vou colocar: uma sensacional encenação do Bolshoi (com coreografia, figurinos e cenários da estreia), uma versão em concerto, e os temas citados para sua diversão. Desapareço mas volto em grande estilo, fala aí ;-)

Abaixo, uma versão para concerto, mais comumente realizada (as diferenças musicais são pequenas):

“Ela tem uma perna de pau”. Uau!

“Descendo a Peterskaia”, no mais glorioso estilo soviético:

“Die Schönbrunner”, valsinha de Lanner:

E, ainda de Lanner, as “Danças da Estíria”:

Dos mesmos diretores de Ilha Quadrada, eis o Concertmaster, um front-end que transforma o Spotify em um poderoso player de música clássica. GRÁTIS!

Post escrito por Adriano Brandão em 24/01/2013. Link permanente.