Bach

Cantata BWV. 140

por Adriano Brandão

Johann Sebastian Bach viveu boa parte da carreira como uma espécie de torneira sempre aberta de cantatas (escreveu cerca de duzentas). OK, mas… o que é uma cantata?

Cantatas são composições vocais – duh! – em vários movimentos, para solistas, coro e orquestra, geralmente sobre temas religiosos. Dá para imaginar uma cantata como uma reflexão musical a respeito de um assunto. Cada parte da cantata é uma manifestação diferente desse pensamento: para solista, para duo, para coro etc.

Com o desenvolvimento do gênero, surgido no início do barroco, foram aparecendo algumas divisões típicas. O componente clássico da cantata é o coral, filho direto do coral luterano, uma espécie de hino. Existem também os coros – grandes formas para coro em forma livre, geralmente de cunho mais contrapontístico que os corais – e as árias da capo – espécie de canções nas quais a última parte é uma repetição ornamentada da primeira.

Entre esses três ingredientes básicos, são distribuidos recitativos, trechos em que um texto é semi-cantado, com acompanhamento mínimo. Os recitativos parecem chatos, mas são muito importantes: eles têm a função de amarrar a obra conceitualmente, fazer a ação “andar” e reforçar a mensagem que se quer passar para a audiência.

O formato da cantata é, portanto, diferente da missa e mais próximo da ópera de números, porém sem o aspecto teatral. Uma cantata ampliada (ou uma coleção de cantatas) é o que se chama de oratório. Há oratórios especiais: um oratório sobre os últimos dias de Cristo recebe o nome de “paixão”, por exemplo.

Bach compunha para seus patrões de Leipzig cantatas para as ocasiões mais diversas. Algumas foram para a Páscoa, outras para o Natal (que foram agrupadas no célebre “Oratório de Natal”) e um monte para as demais datas do recheado calendário litúrgico. Haja imaginação! E nos assombramos mais ainda quando vemos a qualidade da música que Bach criou – é tudo da mais alta qualidade.

Entre as cantatas bachianas mais conhecidas está a de número 140, para três solistas, coro e orquestra, composta em 1731 e que recebeu o nome de “Despertai, a voz nos chama”. O texto-base é o hino de mesmo nome criado por Phillipp Nicolai uns 130 anos antes. Bach estrutura sua cantata em sete partes, nas quais o texto de Nicolai é dividido. A primeira é um coro sobre o primeiro verso do hino; em seguida vêm um recitativo, uma ária para soprano e baixo, um coral sobre o verso “Sião ouve os vigilantes cantarem” (que ganhou tanscrição para órgão muito célebre), outro recitativo, outra ária para soprano e baixo e o coral final.

Note que as duas árias recebem tratamento bem diferente. Bach tinha o costume de fazer os solistas vocais serem acompanhados por solistas instrumentais – os tais “obbligatos”. A primeira ária tem uma linda parte para violino obbligato; a segunda ária tem o oboé como convidado de honra. Note também a expressividade dos recitativos – muito longe de serem secos e sem vida – e o maravilhoso tratamento que Bach dá ao coral luterano, incrivelmente enriquecido.

As cantatas de Bach reservam um monte de riquezas mesmo para quem está bastante distante do mundo luterano; são, antes de tudo, experiências musicais incríveis, puríssimas. Quem tiver ouvidos para ouvir… ;-)

[O vídeo acima é parte de um ciclo muito bonito de cantatas de Bach que Ton Koopman realizou em Amsterdã. Não há aplausos no fim, em respeito à seriedade contemplativa da obra sacra.]

Dos mesmos diretores de Ilha Quadrada, eis o Concertmaster, um front-end que transforma o Spotify em um poderoso player de música clássica. GRÁTIS!

Post escrito por Adriano Brandão em 14/02/2013. Link permanente.