Beethoven

“Fidelio”, aberturas

por Adriano Brandão

Beethoven não era um cara ligado a ópera. Um ambiente frívolo demais para o pudico e sisudo compositor, provavelmente. Mas ele compôs uma: “Fidelio”, com o plot deveras beethoveniano de uma injustiça reparada por ato heroico. A história, do francês Jean-Nicolas Bouilly, que trata de um prisioneiro político preso por um ditador e libertado por sua esposa (Leonora, que invadiu a prisão disfarçada como Fidelio, um homem), tinha tudo mesmo para agradar o exigente Beethoven. Nenhum outro enredo faria sentido para ele.

Mas mesmo assim Beethoven sofreu muitíssimo para criar sua ópera. Fez nada menos que três versões dela: uma para a estreia em 1805, outra para uma apresentação em 1806 e, finalmente, a definitiva de 1814, também para uma montagem. Achou muito? Beethoven penou mais ainda para encontrar a abertura ideal. Existem quatro versões dessa abertura. Confira comigo no replay:

  • Para a estreia de 1805, a primeira, hoje chamada de Abertura “Leonora” no. 2 (!).
  • Para a versão de 1806, outra, a maior de todas, a Abertura “Leonora” no. 3.
  • Para uma apresentação em 1808, ainda outra abertura, que ganhou o número de Abertura “Leonora” no. 1 (vai entender).
  • E, ufa ufa, em 1814 chegou à versão final, dita Abertura “Fidelio”.

O material temático é praticamente o mesmo em todas as aberturas – claro, extraído da ópera. O que muda é o conceito básico do que deve ser uma abertura de ópera. Um resumo bastante exato da ação? Um rápido “levantar de cortinas” para “esquentar” o público? Uma solução de compromisso entre essas duas visões? Não há resposta pronta e Beethoven teve dificuldades para satisfazer seu lado sinfônico sem esquecer as necessidades dramáticas da ópera.

A primeira abertura composta, a no. 2, é grande e muito detalhada, com uma longa introdução lenta que culmina no tema principal da ópera e que leva a um desenvolvimento realmente notável, com trompetes fora do palco e diversos artifícios dramáticos. A ideia aqui é reproduzir a ação:

Beethoven não ficou satisfeito. Achou que a abertura não estava retratando suficientemente bem a história e compôs uma peça ainda mais detalhada e dramática, de maravilhosa expressividade. Beethoven expande a abertura anterior, seguindo o modelo geral e acrescentando ideias novas aqui e ali. Sua “Leonora” no. 3 é praticamente um poema sinfônico avant la lettre. É maravilhoso! Você ouve e fica tão satisfeito que, sei lá, dá vontade de mandar cancelar a ópera que deveria vir-lhe em seguida:

[O vídeo holandês acima é uma atração à parte, com uma direção “experimental” bem bizarra. O que é aquela cena do solo de flauta? Hahaha!]

Foi a inadequação entre a magnífica abertura, WHITE-HOT-mega-hiper-giga-excitante, e o começo bobinho da ópera (uma mocinha suspirando de amores por Fidelio, que na verdade é uma mulher), que fez Beethoven mudar de ideia. O objetivo agora tornou-se concisão e harmonia. Sua “Leonora” no. 1 reflete isso: é muito mais curta e leve, realmente um “acorda, plateia!”. Saca só:

Mas realmente não faz boa figura frente às demais tentativas. Então Beethoven, na revisão geral que empreendeu em 1814, começou de novo. Seguiu a linha de começar a ópera com algo mais simples. Ao contrário das três “Leonora”, a abertura “Fidelio” não tem introdução lenta – já vai com tudo com um motivo curto (e novo) em uníssono, no melhor estilo beethoveniano. A sensação geral é: agora sim temos uma abertura de ópera, não uma sinfonia de Liszt.

A saga das aberturas de “Fidelio” é um fascinante testemunho do árduo processo criativo daquele que é, provavelmente, o maior compositor de todos os tempos. Nada vem de graça – aqui é trabalho, meu filho!

E aí? Qual sua versão favorita? A minha é, sem dúvida, a “Leonora” no. 3, mas tenho minha quedinha pela concisa “Fidelio”. Vote nos comentários! :)

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Post escrito por Adriano Brandão em 13/02/2013. Link permanente.