Shostakovich

Sinfonia no. 5

por Adriano Brandão

Chegamos ao fim de nossa série “V“! E a Quinta de hoje resgata um compositor tão querido quanto polêmico: Dmitri Shostakovich.

Todas as sinfonias que mostramos até agora, com exceção da de Bruckner, têm claramente a luta como tema. A Quinta de Beethoven é uma longa batalha que só se resolve no fim. A de Mahler parece-se mais com uma batalha interior cuja paz só é alcançada no penúltimo movimento – o último é uma bizarra euforia. A de Nielsen é somente metade luta – o conflito é resolvido no meio da obra, sendo que o restante da sinfonia serve para dar um rumo definitivo à vida pós-guerra.

Já esta Quinta de Shostakovich já começa com a batalha encerrada. Toda a ação está aqui na busca de uma acomodação pós-conflito.

Como sempre em Shostakovich, buscamos entender melhor sua obra através de sua vida. A Quinta foi escrita em 1937, um ano particularmente complicado para o compositor. Em 1936 Shostakovich sofreu um duro golpe do regime soviético quando sua ópera “Lady Macbeth de Mtsensk” foi o pivô de um artigo demolidor no Pravda, o jornal oficial. A burocracia stalinista, através do tal artigo anônimo, mandava um recado ao compositor: a estética do regime era outra e ele ~~precisava se enquadrar~~.

Era uma proposta que Shostakovich não poderia recusar. Vale lembrar que o “Grande Terror” stalinista estava começando e vários artistas, na maioria amigos ou conhecidos de Shostakovich, foram presos e assassinados pelo regime. No meio da confusão, aterrorizado, o compositor mandou cancelar a publicação da Quarta Sinfonia, uma obra que continuava a linguagem de “Lady Macbeth de Mtsensk”. E #partiu compor a Quinta.

A nova sinfonia era a resposta oficial que Shostakovich precisava dar. Então, reflitamos: se esta Quinta teve seu conflito terminado antes da própria obra, significa que a sinfonia se inicia com… uma derrota! Sim, de todas as quintas que mostramos, esta é a única em que há derrota, acontecida a priori, antes da música começar. Pois é. Nesta sinfonia Shostakovich não luta, mas lambe suas feridas.

A obra inicia propriamente com um movimento lento com um sabor meio de passacaglia (na verdade, é um cânone), quase uma marcha. Esse gesto se tornaria muito típico do autor – várias sinfonias posteriores começariam com um longo e sombrio movimento lento. Há um clímax marcial e a parte termina meio interrogativa.

O scherzo a seguir é calcado totalmente no scherzo da Segunda de Mahler – a “Ressurreição“, lembram? É uma espécie de valsa irônica, ansiosa. Seu amargor é dissipado pelo movimento lento, uma longa e bela elegia, que os estudiosos afirmam ter diversas referências religiosas. Não é difícil pensar nesta parte como um lamento velado pelos mortos do regime.

Dores resolvidas, hora da resposta pública: o finale, de espírito marcial e exterior, que assume de bom grado a estética do realismo socialista que o artigo do Pravda lhe impôs. É de uma alegria e um triunfalismo que não faz sentido frente ao restante da sinfonia, que é francamente azedo. Ou… faz todo o sentido do mundo se entendermos a obra como um caminho que inicia na derrota, passa pelo luto e termina na genuflexão.

É uma sinfonia fascinante, seja por sua narrativa, seja pela própria qualidade musical. É uma mais-que-digna representante das diferentes lutas que definem a grife “Quinta Sinfonia”. Ouçam, comentem! E, segunda que vem, nova série!

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Post escrito por Adriano Brandão em 17/02/2014. Link permanente.