Brahms

“Requiem alemão”

por Adriano Brandão

Para quem são oficiadas as missas de requiem? Se pegarmos o texto latino do Próprio (i.e., da parte da missa que é específica do rito dos mortos) fica muito óbvio que elas são feitas em intenção dos mortos, ou seja, para eles: “que descansem em paz”, “libertai as almas dos que têm fé”, “que a luz eterna os ilumine” etc.

Nosso amigo Johannes Brahms, lá em 1865, imaginou algo um pouquinho diferente: e se houvesse um requiem que fosse direcionado aos vivos, às pessoas que sofrem com a morte (de entes queridos também, mas principalmente com a própria ~perspectiva da morte~)?

Foi com essa ideia que ele compôs sua primeira grande obra-prima, um oratório que chamou de “Um requiem alemão”. Alemão principalmente porque, ao contrário do rito católico tradicional, não é cantado em latim, mas em alemão mesmo. Brahms escolheu sete textos da Bíblia (antigo e novo testamentos) que tratam da temática da morte sob a perspectiva dos vivos. Vale listar:

  • “Abençoados, os que sofrem” (Mateus)
  • “Toda a carne é como a relva” (1 Epístola de Pedro)
  • “Faze-me conhecer meu fim, Senhor” (Salmo 39)
  • “Como é agradável tua morada” (Salmo 84)
  • “Agora sois tristes” (João)
  • “Aqui não temos morada permanente” (Hebreus)
  • “Abençoados, os mortos” (Apocalipse)

Em geral, o que chama a atenção é a falta de um tom “proselitista” ou religioso. Não há menção direta a nenhuma crença específica. Os textos escolhidos por Brahms são propositadamente genéricos em suas menções a Deus ou à salvação. Há mais a preocupação geral em representar a angústia pelo mistério da vida e da morte (as partes 2, 3 e 6) e trazer certo alívio (as partes 1, 4, 5 e 7).

(A posição religiosa de Brahms pode ser a chave para essas escolhas. Tradicionalmente Brahms é classificado como ateu, ou no mínimo como um humanista livre-pensador, o que certamente era. Há cartas em que o compositor relata certa inquietude com alguns dos textos que escolheu, principalmente os trechos do Evangelho de João da parte 5.)

Musicalmente o “Requiem alemão” marca o início da fase madura de Brahms. Como já comentamos, suas obras anteriores são tipicamente superromânticas e transbordantes; aqui Brahms torna sua linguagem mais equilibrada e sua expressão mais comedida. Chamam a atenção a grande ênfase coral do “Requiem” (os dois solistas vocais só aparecem em três dos sete movimentos) e a maestria das fugas das partes 3 e 6 (uma forma tão esquecida pelo romantismo!).

A obra impressiona pela profundidade de seu pensamento, pela sensação de paz e consolo que realmente transmite (apesar das tempestades das partes 2 e 6) e pela perfeita estrutura. A originalidade da abordagem religiosa e a beleza da música fazem do “Requiem alemão” uma das partituras obrigatórias do século 19. Tem de ouvir!

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Post escrito por Adriano Brandão em 18/02/2014. Link permanente.