Villa-Lobos

“Choros” no. 6

por Adriano Brandão

Você sabe o que é um choro? Guarde este conceito: é o ato de derramar lágrimas, por tristeza, alegria ou profunda emoção.

Mas é óbvio que em música é outra coisa: é uma modalidade de música popular brasileira, instrumental, fortemente baseada em contraponto. É essa ideia fundamental que Heitor Villa-Lobos desenvolveu em sua série de dezesseis “Choros” (quatorze numerados, mais uma “Introdução aos choros” e um “Choros bis”). São obras de forma muito solta, de trabalho polifônico relativamente intenso, temperadas por uma boa dissonância, ritmicamente variadas, com muitas inserções de canções folclóricas e/ou populares. É o Villa-Lobos quintessencial, o mais próximo da vanguarda que ele chegou.

Como na série das “Bachianas brasileiras”, as formações instrumentais são variadas: há “Choros” (no plural, sempre) para orquestra, para piano solo, para violão solo, para coro e orquestra, para piano e orquestra, para grupos de câmara, até para banda sinfônica e duas orquestras! Nem todos os “Choros” foram preservados: as partituras dos dois últimos foram perdidas. Pela descrição pareciam altamente inovadores (ou malucas! um deles era esse com banda que comentei).

O “Choros” mais célebre é o de número 10, para coro e orquestra, que usa extensivamente uma canção popular chamada “Rasga o coração”. É maravilhoso e emocionante demais, mas vamos comentar hoje outro “Choros”, o sexto, para orquestra, de 1926. É talvez a obra mais equilibrada do ciclo, a mais lírica decerto. É uma imensa rapsódia de meia-hora, em que temas de feição popular se entrelaçam, se alternam e se complementam a melodias típicas villalobianas.

Gosto de imaginar o “Choros” no. 6 como uma espécie de viagem de trem pelo Brasil. É possível visualizar o Brasil mais urbano e litorâneo, mas também o Brasil mais pacato do interior. A obra tem um perfume nostálgico, um tanto melancólico, absolutamente irresistível.

Guardou o conceito de choro que comentei acima? Então reserve os lenços – você vai precisar ;-)

[Abaixo, a gravação recente da OSESP para a BIS. Posso dizer? A orquestra é ótima, mas não gosto da regência de John Neschling, que considero francamente insensível, como de costume. A minha versão favorita é a de Roberto Tibiriçá com a Orquestra Petrobrás – gravada ao vivo no Rio com a presença do folclórico e empolgado “Maravilha” na plateia. Mas não encontrei no YouTube… :(]

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Dos mesmos diretores de Ilha Quadrada, eis o Concertmaster, um front-end que transforma o Spotify em um poderoso player de música clássica. GRÁTIS!

Post escrito por Adriano Brandão em 27/12/2012. Link permanente.