Gershwin

“Rhapsody in blue”

por Adriano Brandão

O que é música clássica? O que é musica popular? Onde está a fronteira? Taí uma discussão bem antiga e complicada. Panorama rápido: a dita “música clássica” surge da música escrita, em oposição à música folclórica, essencialmente transmitida pela tradição oral, de onde surge a dita “música popular”.

A natureza anotada da música clássica permitiu a complexidade crescente – polifonia, harmonias mais elaboradas, formas ampliadas, ritmos artificiais – que passou a caracterizá-la. A música folclórica, transmitida pela memória, depende fundamentalmente da execução – daí que é uma música totalmente derivada da técnica instrumental (ou da poesia que sustenta o canto).

A música escrita também possibilitou sua difusão internacional. Enquanto a música folclórica se resume a uma região ou etnia, dependendo de uma difusão muito lenta, demorada em várias gerações, a música anotada rapidamente se espalha, atravessando países e continentes. Enquanto o folclore mantém-se imutável por muito tempo, a música escrita se mistura, se expande, não para de se transformar. Sua rede de difusão e influência tornou a arte um fenômeno histórico global.

OK! Acordados? ;-) Agora vamos introduzir em nossa história um cidadão chamado Thomas Edison e sua invenção, o fonógrafo. Graças ao som gravado, as manifestações musicais basicamente ligadas à execução começaram a ser registradas e, principalmente, difundidas, gerando influências, criando misturas e – pela primeira vez – evoluindo historicamente. Igual à sua contraparte escrita. E agora, como diferenciá-las?

Restou a complexidade relativa da música, que comentamos acima. Mas que dureza, hein? Até hoje essa fronteira não é bem definida. Piazzolla é clássico ou popular? Tom Jobim deve ser chamado de “maestro”? Os concertos do Hekel Tavares, o que são? E GEORGE GERSHWIN?

O americano Gershwin resume bem a discussão. Cancionista de mão cheia, criador de musicais de imenso sucesso, dos maiores nomes do “Great American Songbook” (ao lado de Kern, Berlin e Porter), já rico, famoso e imortalizado aos 25 anos. O que mais poderia querer? Escrever música de concerto?

Sim, mas não foi invenção dele. Em 1924, Paul Whiteman, dono de uma orquestra de jazz muito célebre, encasquetou com um concerto de jazz sinfônico. Sem nem falar com Gershwin, mandou publicar um anúncio em que propagandeava um “concerto de jazz” de sua autoria, com data e tudo. Foi Ira, irmão do compositor, que leu o aviso no jornal. Não teve jeito e Gershwin teve que compor a obra para Whiteman, em tempo recorde.

Sem muita noção de orquestração, Gershwin entregou a obra – que chamou de “Rhapsody in blue”, para piano e jazz band – sem instrumentação para Ferde Grofé, arranjador oficial de Whiteman. A estréia foi um sucesso! Em forma de partitura para dois pianos, e em gravações para gramofone, a “Rhapsody” vendeu mais de um milhão de cópias. Grofé, em seguida, orquestrou a peça mais duas vezes. A última, para orquestra sinfônica completa, foi a que tornou-se mais conhecida.

Gershwin adorou a experiência de escrever obras de maior fôlego. Em seguida compôs um concerto para piano mais formal, o Concerto em fá, o poema sinfônico “Um americano em Paris” e, principalmente, sua ópera “Porgy and Bess”. Aprendeu a orquestrar, aprimorou sua noção formal, ganhou musculatura musical… mas a peça que permaneceu de verdade no repertório e no coração do público foi mesmo a imperfeita e imatura “Rhapsody in blue”!

O fato é que a “Rhapsody” – que Leonard Bernstein muito perspicazmente definiu não como uma composição, mas como uma colagem – tem música de um vigor impressionante. As melodias são lindas, a variedade de ritmos é empolgante; a “Rhapsody” é música que, acima de tudo, é viva e pulsante.

Sabe quem era fã? Bernstein já sabemos, mas tem outro: o venerável Arnold Schoenberg, vizinho de Gershwin na Califórnia por um tempo. Quer saber? Estou bem acompanhado: a “Rhapsody” merece o SELO DE EXCELÊNCIA DO GRANDE CARVALHO! \o/

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Post escrito por Adriano Brandão em 26/12/2012. Link permanente.