Weber

“O franco-atirador”

por Adriano Brandão

Boa semana a todos! E segunda-feira é dia de série aqui na Ilha Quadrada. Na semana passada terminou a série “Vareia!”, que abrodou o tema um tanto sério dos conjuntos de variações. Hoje começa um especial bastante diferente: “Mágico, fantástico, lendário” sobre a junção da música com o sobrenatural e o misterioso. Serão seis capítulos de outro mundo! BWAHAHAHA!

Pois não é que a temática fantástica é um pano de fundo relativamente recente para a música? A música escrita surgiu na Alta Idade Média e suas duas manifestações principais era a liturgia e o travadorismo: daí que os temas mais recorrentes eram religiosos ou aventurescos. O Renascentismo e o Barroco acrescentam a isso o imaginário mitológico e o Classicismo é até mais sóbrio em sua busca de racionalidade.

Foi, portanto, somente no século 19 que o fantástico e o sobrenatural, típicos do folclore, ganhou espaço na chamada “alta arte”. Até que Mozart, com sua ópera “A flauta mágica”, já havia flertado com a temática de bruxas, dragões e provas místicas, mas ainda foi um passo relativamente tímido. A primeira obra musical relevante mais profundamente ligada a esse tipo de fantasia é mesmo a ópera “O franco-atirador”, de Carl Maria von Weber, de 1821. A obra de Weber literalmente enfeitiçou o público e o ambiente mágico por ela evocado tornou-se uma constante do romantismo musical desde então.

Como a maior parte das obras fantásticas românticas, “O franco-atirador” é baseada em antigas lendas. O franco-atirador que dá nome à obra é um personagem prototípico, meio faustiano: o atirador que, em troca da mira infalível, faz um acordo com o diabo.

Na ópera da Weber, a história se passa na Boêmia do século 17. Um guarda florestal de nome Max está apaixonado por Agathe, filha do chefe da guarda. Está prestes a assumir essa posição e se casar, mas antes precisa passar por uma prova de tiro. O problema é que ele não anda atirando bem – pouco antes havia perdido para um novato – e, inseguro, aceita os conselhos de outro guarda, Kaspar, que lhe conta a história das balas mágicas, infalíveis.

Kaspar e Max, certa noite, vão até a Garganta dos Lobos – local de antigos cultos demoníacos – forjar as balas mágicas. Em uma cerimônia bem tenebrosa, marcada pela presença variada de espíritos, fantasmas e espectros, fazem sete balas. Seis delas têm o poder de atingir exatamente o que o atirador quer; a sétima e última é guiada diretamente pelo diabo e atinge o que o coisa-ruim quiser. Brrrrr!

Pois que, por uma série de acontecimentos, a sétima bala calhou de ser usada justamente na prova de tiro. Na hora h, guiada pelo diabo, quem que ela atinge? Agathe. Sorte que, alertada de “maus presságios” por um eremita que encontrara dias antes, ela estava vestida com uma grinalda que acabou desviando a bala mágica, que se alojou justamente em Kaspar, que morre. Não surpreendemente, Agathe e Max se casam e são felizes para sempre.

Por trás da trama novelesca, com o velho conflito entre o bem e o mal, uma música em constante tensão. Para 1821, a ópera de Weber era realmente assustadora. Hoje, boa parte da música nos parece gratuita: é, afinal, ópera, e tem um monte de marchas, valsas, árias românticas e corinhos. Mas muitas cenas – como a sensacional cerimônia de forja das balas na Garganta dos Lobos – são impressionantes até hoje.

Se não bastasse isso, o jovem Richard Wagner ficou muito impactado (ops!) por “O franco-atirador”. Está na obra de Weber muito do mundo wagneriano: diabos, santos, maldições, rendenções pelo amor e, claro, forjas fantásticas ;-)

Abaixo, a eletrizante cena da Garganta dos Lobos. Apague a luz… e curta!

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Post escrito por Adriano Brandão em 14/01/2013. Link permanente.