Handel

“Música aquática”, suíte no. 1

por Adriano Brandão

Barroco, era da extravagância, do exagero, do grandioso. Pense num grande desfile fluvial, em que o barco do rei é acompanhado por outro barco, sobre o qual há uma orquestra de 50 músicos tocando a todo vapor, horas a fio. Pois isso aconteceu, em 17 de julho de 1717, em Londres. Curiosamente, nos dois barcos haviam alemães que entrariam para a história da Inglaterra. Dois Jorges: Georg Friedrich Haendel e Georg Ludwig, a.k.a. George Frideric Handel e o rei Jorge I.

Muitas coincidências ligando os Jorges alemães em Londres: eles já haviam trabalhado juntos antes em Hanover, onde Jorge era príncipe-eleitor (uma espécie de governador do Sacro Império Romano Germânico). Handel foi para a Inglaterra pouco depois. Quando a rainha Ana morreu, Jorge era o mais próximo parente não-católico… e assim um alemão se tornava rei da Inglaterra. Foi o primeiro monarca da Casa de Hanover, que durou até a rainha Vitória, já no século 20.

(Esse papo de Casa isso, Casa aquilo… parece coisa de “Game of Thrones”!)

Aguente o papo real mais um pouquinho :) A morte de Ana fez Jorge I e Handel se reencontrarem. E um lance político os uniu – o filho do rei, o príncipe Jorge, brigara com o pai e começou a enfiar o pé na jaca organizando festas e mais festas. Para deixar claro para a cidade toda que ele era O REI e ainda se divertia melhor ainda, Jorge I inventou o desfile de barco. Handel, o maior músico do reino, foi convocado. Garantia de grandiosidade nota 1000.

Handel escreveu mais ou menos uma hora de música. O rei gostou tanto que pediu uns três bises durante o festerê. Anos depois, essa hora foi dividida em três suítes, batizadas como “Música aquática”, e assim são executadas até hoje. Mas não é uma coisa assim tão fixa – há outras coleções possíveis, e a ordem dos movimentos varia conforme o regente. Minha suíte favorita é a em fá maior, de grande fôlego e brilho.

Como toda suíte barroca, esta primeira “Música aquática” começa com uma abertura francesa – entrada solene, de ritmo pontuado, depois rápido e fugado -, e depois encaminha para a sucessão usual de danças. Como se tratava de música para uma festa num barco, Handel usa e abusa dos sopros e dos metais, que soavam muito melhor ao ar livre que cordas. Então, entre os clássicos minuetos e bourées, há hornpipes – espécie de danças militares em forma de fanfarra.

Sorte nossa que Jorge I quis duelar em extravagância com seu filho – a disputa fez com que Handel compusesse provavelmente sua mais famosa obra orquestral. Muito difícil imaginar algo mais barroco – com toda a pompa exagerada, clovisbornayseana, característica – que a “Música aquática”. E é Handel – como não ser delicioso? :)

Dos mesmos diretores de Ilha Quadrada, eis o Concertmaster, um front-end que transforma o Spotify em um poderoso player de música clássica. GRÁTIS!

Post escrito por Adriano Brandão em 10/04/2014. Link permanente.