Bruckner

Sinfonia no. 5

por Adriano Brandão

Depois de um longo e tenebroso inverno, eis que a Ilha Quadrada retorna à sua programação normal!

E, como é segunda, continuamos com a nossa série “V”, que na semana passada apresentou a Quinta Sinfonia mais famosa de todas, a de Beethoven. Hoje daremos um salto de quase setenta anos (!). Ué? Pois é: peço desculpas a Mendelssohn, Gade, Schubert, Dvorák e todos que compuseram interessantes quintas nesse período, mas a primeira quinta digna de ficar ao lado de Beethoven, é mesmo a de Anton Bruckner. E tenho dito! \o/

A produção sinfônica de maturidade de Bruckner é dividida em três fases: a inicial, com sinfonias trágicas em tom menor (1, 2 e 3); a intermediária, com obras bem mais sorridentes em tom maior (4, 5 e 6); e a final, com peças realmente monumentais (7 em tom maior, 8 e 9 em menor). A Quinta, de 1876, fica bem no meio dessa trajetória. Tal equilíbrio faz com que seja – apesar da Oitava – a minha sinfonia bruckneriana favorita. Mas é uma peça de difícil apreensão. Explico.

É que é na Quinta que a linguagem de Bruckner alcança seu maior nível de abstração. As três sinfonias iniciais são dramáticas; as três finais aspiram a uma profundidade espiritual imediatamente perceptível; a Quarta e a Sexta são afáveis, românticas, com seu clima de “floresta”. E a Quinta? Ela é ela mesma – não faz alusão a nada, não tem atmosfera discernível, nenhum apoio extramusical. É o Bruckner quintessencial, no que há de mais puro. Isso exige do ouvinte uma grande predisposição ao seu estilo e boa dose de paciência.

Mas é recompensador! A Quinta é incrível do começo ao fim. Ela só parece difícil. Sua casca meio dura esconde belezas impressionantes!

A sinfonia começa FODÁSTICA, com a única verdadeira introdução lenta de Bruckner. Cordas em pizzicato e um clima coral, meio de igreja, absolutamente comovente. Em seguida, o tema inicial, que virou lugar-comum associar a isso aqui:

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O movimento, imenso, desenvolve os temas principais e é excitante até não poder mais – claro, se você curte os mecanismos característicos brucknerianos de desenvolvimento temático ;-) Pô, mas como não gostar? É BOM DEMAIS!

O segundo movimento, um adagio que atinge incrível intensidade, começa novamente com as cordas em pizzicato. Guarde bem esse iniciozinho. Quando começar o scherzo, preste atenção – é o mesmo motivo (mas não em pizzicato)! Bruckner aqui já mostra a vontade de integrar de maneira mais profunda os movimentos de sua sinfonia.

Isso é levado ao ápice no finale. Escuta lá: sim, o último movimento se inicia exatamente como o primeiro – o mesmo pizzicato, o mesmo clima coral. Quando o ouvido quer seguir adiante nessa introdução, surge um motivozinho no clarinete que interrompe tudo. É uma “vírgula” musical. Pausa. Ressurge o tema “Seven Nation Army” lá do primeiro movimento. Pausa. De novo o tal motivo do clarinete, a “vírgula”. Agora renasce o tema principal do movimento lento. Pausa. “Vírgula” novamente e… fuga sobre ela mesma! Agora sim, começa definitivamente o finale!

Esse último movimento é inteiro marcado por passagens fugadas, todas de enorme engenharia contrapontística. Bruckner queria mostrar que era FERA NENÉM, só pode ser isso – é impressionante! O finale tem duzentas apnéias, sei disso, mas tente reservar alguma energia para o finalzinho: é sem dúvida uma das passagens mais incríveis de toda a literatura sinfônica. Se a Quinta Sinfonia já era espetacular em seus três movimentos iniciais, aqui então… bom, só ouvindo mesmo. Então não hesita, clica!

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[Aliás, a gravação acima, disponibilizada no YouTube por esse misterioso japonês que gosta de mangá, é FABULOSA! Trata-se de concerto regido por um nome a princípio estranho a Bruckner: Nikolaus Harnoncourt. O movimento lento, principalmente, é MARAVILHOSO, o mais lindo que já ouvi. Uau!]

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Post escrito por Adriano Brandão em 04/03/2013. Link permanente.