Villa-Lobos

“Choros” no. 10

por Adriano Brandão

Hoje, 5 de março, é o aniversário do maior músico brasileiro de todos os tempos, Heitor Villa-Lobos. Nada mais apropriado do que comemorarmos com uma de suas obras mais emblemáticas e importantes: o inacreditável “Choros” no. 10, de 1925, provavelmente a peça que mais perfeitamente simboliza o que é música clássica brasileira.

Quando comentei sobre o “Choros” no. 6, mencionei o sentido que Villa-Lobos dá à palavra: seus “Choros” são releituras da tradição do chorinho popular, no qual um instrumento dialoga incessantemente com os demais, tecendo um emaranhado tão complexo quanto fascinante.

Na série dos “Choros” isso é levado às últimas consequências: o formato do chorinho é o framework perfeito para Villa-Lobos realizar suas incríveis misturas e dar vazão a todas as suas influências. E são inúmeras!

A imaginação do nosso Villa era fervilhante e isso fica claro ao vermos que os dezesseis “Choros” foram escritos para formações instrumentais bastante diversas. Este de número dez é para coro misto e orquestra. Ele é estruturado como um bloco sonoro único, mas é fácil discernir-lhe duas metades: uma puramente orquestral e outra coral. Na minha cabeça, Villa-Lobos quis, em seu “Choros” no. 10, mostrar duas facetas do Brasil: a natural e a humana.

O Brasil natural inicia a obra, com seus sons de floresta tropical e suas inúmeras citações de cantos de pássaros. É impossível não se lembrar de Olivier Messiaen e sua fixação por aves. Aliás, o “Choros” no. 10 começa exatamente como se fosse Messiaen, com aquelas sequências de acordes pesados que parecem enormes rochas, ao estilo da “Turangalîla“. Só que a obra de Villa-Lobos foi composta 23 anos antes – quem influenciou quem? ;-)

A segunda metade do “Choros” é o Brasil humano. E aí o Villa faz uma fantástica e emocionante mistura: a música dos índios com a música das cidades. Ele pega um tema  indígena coletado em 1912 nas excursões amazônicas de Roquette-Pinto, “Macocê-cê-maká”, e o sobrepõe a um xote de Anacleto de Medeiros, “Iara”, de 1896.

Não encontrei gravação desse exato canto indígena, mas fica aqui, como exemplo, um outro registro de Roquette-Pinto em Rondônia:

 

O xote original, “Iara”, pode ser ouvido aqui, interpretado por uma rodinha de choro:

O lance é que, em 1907, Catulo da Paixão Cearense acrescentou à música de Anacleto de Medeiros uma letra, transformando o xote em uma canção que ficou célebre, “Rasga o coração”:

Foi a partir dessa “Rasga o coração” que Villa-Lobos construiu a parte coral de seu “Choros”, inclusive citando o texto. O engraçado (ou trágico) é que Villa só pediu autorização para a família do já falecido Anacleto de Medeiros, esquecendo-se de falar com Catulo. E não é que Catulo processou Villa-Lobos, que foi obrigado a remover a letra da parte coral? “Funhé. Então que seja cantado só com vogais”, deve ter pensado…

A união da canção urbana com o canto indígena, mais os pássaros e os sons da floresta,  é eletrizante! Nunca a confusão que é a chamada “essência do Brasil” foi expressa de maneira tão perfeita – creio que não somente em música, mas em qualquer outra arte. O “Choros” no. 10 é A música brasileira e ponto final. Merecidamente DO GRANDE CARVALHO. Viva Villa! \o/

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Post escrito por Adriano Brandão em 05/03/2013. Link permanente.