Gershwin

“Porgy and Bess”

por Adriano Brandão

Algumas obras-primas sofrem com seu conteúdo extramusical. Vimos na semana passada o caso de “Noite transfigurada” de Schoenberg, cuja excelência musical não combina com a misoginia DA BRABA do texto no qual o sexteto é baseado. Algo parecido acontece com “Porgy and Bess”, de George Gershwin. Aquela que é, sem nenhuma dúvida, a maior ópera americana sofre com uma acusação de racismo que faz todo o sentido MAS que não tira seus enormes méritos musicais.

A historinha de “Porgy and Bess” – a partir do livro “Porgy”, de DuBose Heyward, que também é o autor do libreto da ópera – se passa num cortiço na Carolina do Sul chamado Catfish Row. Todos os personagens são negros. Os protagonistas são Porgy, um mendigo aleijado, e Bess, a bonitona local, namorada de Crown, um estivador. Logo na primeira cena, Crown, doidão de cocaína, mata outro morador num jogo de dados e foge. Bess fica, mas é ostracizada pela comunidade – o único que a acolhe é Porgy.

Seguem-se a descoberta do amor improvável entre Porgy e Bess, as investidas de Sportin’ Life – o traficante – sobre ela e o retorno do próprio Crown, que Porgy termina por matar em uma briga. Com Crown morto e Porgy preso, Bess se torna presa fácil para Sportin’ Life e – SPOILER! – vai com ele para Nova York. A ópera termina com Porgy libertado da prisão e, against all odds, saindo de Catfish Row para encontrar Bess onde ela estiver.

Acumulam-se os estereótipos: todos os personagens falam um inglês pra lá de estropiado; vários são drogados, sempre ligadões na “happy dust”; a comunidade professa uma religiosidade ingênua, salvacionista, repleta de um otimismo conformado (o único de pensamento mais livre é justamente o traficante, Sportin’ Life); as interações com brancos, todos autoridades que não cantam, são marcadas por certo temor reverencial; as principais disputas do enredo são resolvidas com assassinatos.

Os personagens não chegam a ser caricaturas de vaudeville, mas o viés negativo é meio generalizado. Bess, por exemplo. Não duvidamos de seu amor por Porgy, mas ela se demonstra totalmente incapaz de controlar seus desejos: repele Sportin’ Life e Crown quando Porgy está por perto mas, nas duas vezes em que ele está distante, muda de opinião por um pouco de cocaína. O pior de tudo: não há um pingo de discussão social em “Porgy and Bess”. Ninguém reflete sobre sua situação, nem quer sair de Catifsh Row e de tudo o que o cortiço representa – exceto, talvez, o traficante, o que é um bocado simbólico.

Não à toa a ópera gerou muita controvérsia quando estreou, em 1935, e virou tabu nos anos 60 e 70, o auge das discussões sobre os direitos civis nos Estados Unidos. Mas, no final das contas, apesar de todo o debate, a ópera voltou a ser encenada. Sabem por quê? POR CAUSA DA MÚSICA SUPREMA DE GERSHWIN! Ela é muito superior ao libreto. Então, ufa!, vamos a ela!

Todo mundo meio que conhece a música de “Porgy and Bess” graças a alguns números que ganharam vida independente: “Summertime“, “I loves you, Porgy“, “It ain’t necessarily so“, “Bess, you is my woman now“, todos viraram standards do jazz, ícones do “Great American Songbook“. São canções incríveis, mas mais incrível ainda é a engenharia narrativa de Gershwin. Por trás das blue notes, dos ritmos de charleston e dos coros de spirituals, há uma construção bastante sofisticada de motivos condutores, citações cruzadas e espertas caracterizações.

Vale muito a pena ouvir a ópera inteira. Não só pelas árias, cuja beleza nem é necessário sublinhar. Até as transições entre os números, com recitativos que poderiam ser bem aborrecidos, são todas inspiradas. Mesmo as cenas “vazias” – como aquela em que Porgy espera Bess se curar de uma febre e ouve os vendedores cantarem seus produtos – são repletas de viço e atmosfera. O acompanhamento orquestral é de mestre (e pensar que Gershwin nem instrumentara sua “Rhapsody in blue” de onze anos antes).

Chama a atenção na ópera, porém, a misturança de estilos. Gershwin “ain’t got no shame” e bota tudo que ele gosta no caldeirão – a ópera pucciniana, o jazz novaiorquino, o folclore negro que vivenciou na Carolina do Sul, o canto judaico, a música romântica russa… Às vezes soa meio descosido, mas Gershwin era assim mesmo, uma rapsódia em forma de gente. E uniformidade nunca esteve em questão: a narração funciona e é coerente, apesar do estilo oscilante.

Gente, larguem as canções isoladas e encarem a ópera toda. É demais! “Porgy and Bess” tem música linda do começo ao fim, uma construção extremamente bem-feita e é um assombro de vitalidade e inspiração. Go for it!

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Abaixo, o excepcional filme de Trevor Nunn para “Porgy and Bess”, que utiliza a mesma gravação de Simon Rattle acima, mas com encenação para televisão.

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Post escrito por Adriano Brandão em 12/03/2014. Link permanente.