Barber

Sinfonia no. 1

Assim como o Brasil, os Estados Unidos têm a sua produção musical bastante concentrada no século 20. Bom, talvez mais concentrada ainda – afinal, antes disso nós tivemos José Maurício e Carlos Gomes; eles, que eu lembre, somente Edward MacDowell.

Dos autores americanos da primeira parte do século 20, certamente Copland é o principal e mais influente – bota influente nisso! Ives e Gershwin são casos muito à parte, por motivos diferentes. Do segundo time, há um monte de compositores, com destaque para Leonard Bernstein – muitíssimo mais famoso como regente – e para Samuel Barber, o assunto de hoje.

A música americana sempre foi razoavelmente conservadora (e é até os dias de hoje), principalmente se compararmos com o que se fazia na Europa continental. Barber é um exemplo desse conservadorismo. Sua produção foi francamente neorromântica, com poucas incursões numa linguagem mais moderna. Em seus melhores momentos, impressiona pela veia melódica exuberante e pelo senso formal muito acurado. Nos piores, é um limão sem sumo.

Mas vamos nos concentrar na parte boa :) Quando inspirado, gosto muito de Barber. É ótimo exemplo de música que é anacrônica, sim, mas muito bem escrita. Sua melhor obra é a Sinfonia no. 1, de 1936. Aliás, para mim, é mais que isso: é a maior sinfonia americana, apesar de Ives.

A Primeira de Barber é daquelas obras em que vários movimentos tocados sem interrupção se transformam em um movimento único graças à reciclagem do material temático. (Oi, Liszt!) Os três temas da primeira parte, no estilo declamatório característico, dão origem às três partes seguintes (um scherzo, um andante e uma passacaglia).

Creio mesmo que é a narrativa que emociona, com essa qualidade tão rara da concisão, mas os temas são lindos e a orquestração é suficientemente variada para carregá-los muito bem. Se a linguagem musical é conservadora? Sim, lembra um Sibelius ou um Nielsen de vinte anos antes. (Oi, Sétima! Oi, “Inextinguível“!) De qualquer maneira, convence. Não é exatamente pessoal, mas funciona!

Olhando em retrospectiva a produção sinfônica americana não-Ives: a Terceira de Copland tenta unir o estilo “apalachiano” ao maior fôlego do gênero sinfônico, mas o resultado é, IMHO, longo e chato; a Terceira de Harris tem uma linguagem mais pessoal e é muito boa, mas tenho certa implicância pela sua falta de contraste. So… I’ll stick with the Barber. Give it a try!

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Chopin

Prelúdios, op. 28

Algumas obras musicais exercem fascínio extra por serem tão enigmáticas. Os magníficos 24 Prelúdios, op. 28, de Chopin, estão entre elas.

Começa pelo próprio nome: “prelúdio”. Prelúdio é algo que antecede outra coisa, que vem antes de um acontecimento principal. Igual à preliminar no futebol – alguém se lembra dos curiosos campeonatos de aspirantes, cujos jogos aconteciam antes das partidas principais? Pois que no Opus 28 de Chopin não há atração principal. Só os prelúdios, que antecedem… uns aos outros.

Na verdade, o termo aqui é usado como sinônimo de “improviso”, uma espécie de floreio lírico, geralmente muito breve. E aqui está o maior enigma da obra: cada um dos 24 prelúdios é bem curtinho. Alguns estão à beira do mero gesto. O de número 14, por exemplo, dura meio minuto, e termina como se não tivesse nem começado.

Chopin estruturou a coleção na tradição não de um Bach (e seu “Cravo bem temperado”, duas coletâneas de prelúdios e fugas em todas as tonalidades) mas na dos compositores-pianistas novecentistas, como Hummel e Moscheles. Optou por escrever somente prelúdios, nas 12 tonalidades maiores e menores, na ordem do círculo das quintas.

Provavelmente Chopin nem imaginava uma audição completa, na ordem, como se tornou padrão depois. Ouvir os prelúdios assim, de fato, é uma experiência desconcertante, mas que faz muito sentido. A alternação maior-menor dá movimento ao conjunto, a evolução tonal é cativante e o desfile de climas e eventos musicais não para de surpreender o ouvinte.

A uma abertura que parece um borrão, seguem prelúdios muito sérios e estáticos (4 – não, não é Tom Jobim!), outros que são verdadeiros coriscos (10), uma mazurca ali (7 – saca as sílfides?), uma cena feérica acolá (23), uma marcha fúnebre (20), uma tempestade eventual (22), uma declamação épica (24). O meu favorito e provavelmente o mais famoso também é o de número 15, com uma seção central assustadoramente dramática e pesada.

Junto com sua Sonata no. 2, também repleta de enigmas, este conjunto de 24 Prelúdios é das obras mais modernas de Chopin. Nada nela é convencional, fácil ou – como no clichê associado ao compositor – “comportado mas sonhador”. É música com eme maiúsculo, das mais anticonvencionais do século 19.

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Bach

“A paixão segundo São Mateus”

Todas as quartas mostramos obras monumentais, imensas, gigantescas, mamúticas e gargantuescas, todas merecedoras do SELO DE EXCELÊNCIA DO GRANDE CARVALHO. Hoje vamos dar um salto ainda maior. Chegou o dia de comentarmos o que muitos alegam ser a maior peça musical de todos os tempos: “A paixão segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach. BEHOLD!

Composta para a sexta-feira santa de 1727, executada na Igreja de São Tomás de Leipzig da qual Bach era o diretor musical, desde sempre essa “Paixão” foi planejada como algo importante. Já comentamos que Bach teve, por bom tempo, que compor cantatas semanais para a igreja. A “Paixão” se diferencia de todas elas não comente pela duração maior, mas pela ambição maior. Índice melhor disso é sua instrumentação: oito solistas vocais, dois coros, órgão e DUAS orquestras. A obra é grande por design.

Mais exemplos: lembram quando falei da estrutura básica da cantata bachiana, com seu esquema coro-ária-recitativo-coral? Ela está presente aqui, mas em grande escala e com vários twists. Bach aqui brinca de fundir seus moldes, criando compósitos incrivelmente expressivos. Vejam só: a obra já inicia LOGO DE CARA com dois coros sobrepostos a um coral, em que comentários poéticos de Picander são cantados em antífonas, e um hino luterano é cantado por um terceiro coro, ao mesmo tempo. É eletrizante! Funciona como se Bach mostrasse suas credenciais, desse um roundhouse kick e dissesse: “agora o BICHO VAI PEGAR!”.

E pegou mesmo! Seguem a esse coro-coro-coral absurdo mais 67 números de arrepiar os cabelos, em duas grandes partes (1-29, 30-68). É um desfile de momentos de beleza e profundidade inacreditáveis, que não somente contam a história do martírio de Jesus, mas despertam reflexões muito além de qualquer religião.

São cerca de duas horas e meia de música e é até difícil listar minhas partes favoritas. Em geral gosto dos coros (ah, os de abertura e fim de obra!), e das fusões, como o duo/coral do número 27, o recitativo/coro/ária/coro dos números 19-20 ou o recitativo/coro do número 67, o penúltimo. Várias árias ficaram imensamente célebres, como a de número 39, para voz de contralto (e violino obbligato); a de número 35, para tenor (e violoncelo obbligato); e especialmente a de número 65, para baixo, um dos supremos exemplos de alegria triste (ou tristeza alegre?) da história da música.

E pensar que tal monumento tenha passado quase 100 anos na obscuridade? Bach certamente promoveu mais uma ou duas audições da “Paixão” depois da estreia, mas depois disso a obra sumiu. Foi resgatada em 1829 por Mendelssohn e, aí sim, nunca mais deixou de ser reverenciada – universalmente, por músicos e plateia, cristãos e ateus, são-paulinos e corintianos…

Qualquer outro comentário que eu faça vai chover no molhado. O Amancio Cueto do blog Euterpe publicou no começo de 2013 uma série sensacional que destrincha a “Paixão” em detalhes. O melhor que todos temos a fazer agora é ler o texto do Amancio e – acima de tudo – ouvir a música incrível que Bach nos deixou. Obrigado.

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Ravel

Concerto para piano em sol maior

Chicotada! Marchinha de soldadinho de chumbo! Jazz!

Não, eu não fiquei maluco. É mais ou menos esse o esquema da exposição do primeiro movimento do famoso Concerto para piano em sol maior de Maurice Ravel, obra de 1931. O maluco, no caso, é ele :)

Ravel compôs dois concertos para piano e orquestra. O primeiro foi uma peça para ser tocada somente com a mão esquerda, em ré maior. Pouco tempo depois Ravel teve a ideia para um segundo concerto, para as duas mãos, fortemente influenciado pelo jazz americano.

Vale lembrar que o jazz estava na moda na França no anos 20 e 30. Gershwin mesmo esteve em Paris em 1928 e fez muito sucesso com sua “Rhapsody in blue“. O resultado é que vários compositores de concerto, como Poulenc e Milhaud, incorporaram tiques jazzísticos a suas obras.

Ravel não ficou imune, é claro. Seu primeiro contato com o jazz foi com as diversas bandinhas de New Orleans que visitavam Paris e depois nos EUA mesmo (quando conheceu Gershwin). Em 1927 ele já havia escrito sua Sonata para violino, com um movimento inteiro chamado “Blues”. O caminho para este Concerto em sol já havia sido traçado.

Chicotada! Marchinha de soldadinho de chumbo! Jazz! A mistura do primeiro movimento é tão inusitada e funciona muitíssimo bem. As milhares de blue notes, com seu som tão típico, são as responsáveis pela cor predominantemente jazzística do movimento. E o solo de piano nunca, nunca deixa de lembrar o da “Rhapsody in blue”…

É muito legal, mas arrisco dizer que é mesmo o segundo movimento que deixa a impressão mais duradoura no ouvinte. Nada de jazz – é um adagio de tranquilidade absoluta, no qual o solista derrama lirismo sobre a paisagem estática fornecida pela orquestra. É de uma simplicidade e uma beleza inacreditáveis! Vários outros compositores tentaram roubar-lhe o molde: penso imediatamente no americano Samuel Barber, mas tem também Camargo Guarnieri, o português Lopes Graça… Ravel criou aqui o formato do moderno movimento lento de concerto.

A obra termina com um moto-perpétuo curtinho e mega virtuosístico, agora sim cheio de jazz. Ele consegue nos colocar de volta em solo firme após o movimento lento de sonho. E termina, sem muita cerimônia. Essa brevidade é esquisita de início, mas, sei lá, acho que faz sentido. Eu não conseguiria imaginar a graça de um finale muito elaborado após tamanha beleza. Chicotada! Pá pum! Tinha que terminar assim mesmo :)

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Nielsen

Sinfonia no. 5

Após um longo e tenebroso inverno, estamos de volta! \o/

Quando a primeira temporada deste blog foi inesperadamente interrompida, estávamos no meio de uma série – “V“, dedicada a algumas Sinfonias no. 5 especialmente interessantes. Já falamos de três: a de Beethoven, a de Bruckner e a de Mahler.

Hoje é dia de comentarmos uma menos conhecida mas igualmente sensacional: a Quinta Sinfonia do dinamarquês Carl Nielsen, de 1922.

Esse camarada é dono de uma das produções mais originais do século 20. Contemporâneo exato de Sibelius e pouca coisa mais novo que Strauss e Debussy, Nielsen foi aparentemente o mais conservador da turma. Sua obra de juventude nunca se afasta muito de Brahms ou Dvorák, e até o fim da vida manteve-se razoavelmente fiel à tradição germânica. Compôs seis sinfonias, três concertos, um monte de música de câmara e duas óperas, sem nunca vestir a roupa de revolucionário.

Mas que música diferente a dele! O traço mais importante de seu estilo vem de sua aptidão natural para o teatral: a presença constante de “personagens” e eventos musicais inesperados que surgem na maioria de suas obras para causar disrupção, instabilidade. Vejamos:

  • Os cantores que aparecem no meio da Terceira Sinfonia;
  • O duelo de timpanistas no final da Quarta Sinfonia;
  • O maldito trombone que importuna o solista no Concerto para flauta;
  • A onipresente caixa do Concerto para clarinete;
  • O final maluco da Sonata para violino no. 2;
  • O longo trecho ad libitum do poema sinfônico “O sonho de Gunnar”;
  • O bizarro scherzo da Sexta Sinfonia.

E, claro, a Quinta Sinfonia que é nosso assunto de hoje. Chama a atenção nessa obra sensacional sua disposição inusitada (dois movimentos compostos por duas e quatro partes, respectivamente, tocadas sem interrupção) e o papel importante da caixa no primeiro movimento. (De fato, daria para classificar a metade inicial da obra como um confronto entre a orquestra e a caixa. Nielsen chegou a escrever na partitura a instrução para o percussionista: “improvise para impedir, a todo custo, a orquestra de tocar”. Uau. SPOILER: a orquestra vence no final!)

A sinfonia começa num cenário desolado, com figuras nas violas ao estilo de um sismógrafo ou um contador geiger. Será que Nielsen pensou mesmo num mundo pós-apocalíptico? Aos poucos a presença da já mencionada caixa se faz perceber e, realmente, ela briga com todo mundo. Só depois de um tempo surge um belo tema nas cordas graves que parece rivalizar com a secura destrutiva da caixa; repetida por toda a orquestra, não sem muita batalha, essa melodia sela o clímax da primeira parte e a vitória final dos “sentimentos positivos”.

Já dava para terminar aí? Hmmm. Ao contrário da Quinta de Beethoven, que só resolve seu conflito no final, a Quinta de Nielsen o resolve no meio. Mas não houve resolução real – quer dizer, a tal da caixa foi derrotada, mas ainda é preciso levar a sinfonia para algo diferente daquela desolação completa do “contador geiger” inicial.

Então a segunda parte começa a todo vapor, realmente “propositiva”, cheia de esperança. Mas o caos logo se instaura, na forma de uma fuga caricata, quase uma marcha, não muito distante da metaleira de um Shostakovich, por exemplo. Só há paz após uma segunda fuga, desta vez lenta e reflexiva, sobre o tema “propositivo” do início do movimento, que justamente retorna para terminar esta obra-prima da maneira mais positiva e majestosa possível.

É um percurso lindo, muito emocionante. Notem que fiz um baita esforço para comentar a obra sem super interpretá-la. A descrição restou abstrata porque Nielsen realmente não dá nenhum background literário ou extramusical para a sinfonia. Nem subtítulo ela tem. O que a caixa simboliza? É uma batalha do quê afinal? O que é esse mundo tão soturno que inicia a obra? Tem a ver, será, com a Europa do pós-guerra (em 1922 a Primeira Guerra Mundial mal havia acabado)?

Não temos como saber. O que fica: uma das maiores sinfonias do século 20 (e de qualquer século), das mais humanas e originais jamais compostas, e que você PRECISA conhecer. Então clica aí! ;-)

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Agora todos os posts desta Ilha trazem três opções de audição. Recomendamos o Deezer, uma incrível plataforma online de música, com acervo praticamente infinito. Não precisa baixar nada, é só clicar e ouvir. Ele é gratuito por seis meses, com anúncios, basta fazer o login via Facebook. Quer se livrar dos anúncios e continuar tendo acesso depois desse período? Assine! É menos de 10 reais por mês. Vai lá, FAÇA PELAS CRIANÇAS :)

Mas há maneiras alternativas: uma é o Spotify, para os fãs (WARNING: eu tenho uma conta americana do Spotify e às vezes posso inserir gravações que não estão disponíveis para serem ouvidas em outros países, como o Brasil); e a outra é o velho conhecido YouTube. O YouTube nem sempre tem a melhor gravação possível e, já aviso, todo vídeo lá está arriscado de ser apagado a qualquer momento pelos detentores dos direitos autorais.